sábado, 2 de agosto de 2014

Soneto de separação

"De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente."

(Vinicius de Moraes)

Vinicius é o meu poeta favorito. Nenhum outro antes ou depois dele me fez ter a sensação da alma desnuda e de ter aquelas palavras escritas pra mim. Ler suas poesias, ouvir suas músicas, me leva à uma realidade densa, quase como se eu pudesse mergulhar no caos que há em mim.

Hoje, passeando por seus escritos, me deparei com um de seus preciosos sonetos, um dos meus favoritos. E quando a certeza das despedidas se faz tão forte, tão presente, ler que "de repente do riso fez-se o pranto" é um prelúdio - amargo - da força que é preciso ter pra abrir mão das coisas, das pessoas...

Odeio despedidas. Odeio aquilo que elas fazem com as histórias. É doloroso perceber que a gente tem muita história pra perder, pra deixar escorrer pelos dedos. Mas as despedidas servem pra nos lembrar que nós temos apenas uma falsa sensação de controle... Quando você pensa que tá tudo ajeitadinho, tudo bonitinho e que nada vai perturbar sua ordem, pronto! Acontece uma despedida.

Dominadores não estão acostumados à despedidas. Pra nós, ter que abrir mão dos brinquedos, do chicote, é abrir uma ferida que parece que nunca cicatriza. Tirar uma coleira dói, perder um submisso dói... são processos que nos ferem no que nos é mais sagrado: o controle.

São as tais histórias que vão se perdendo... E perder é um resultado inaceitável. 

Mas desde quando qualquer ser humano pode dizer que esta ou aquela coisa é inaceitável? A vida vem como uma avalanche sobre você e te faz engolir à força. "Você não tem escolha", ela te diz. E nós, dominadores, que sempre damos à alguém a chance de escolha, tentamos barganhar com a vida. Mas ela é implacável e não conhece o "consensual". É assim e pronto.

Em tantos anos como dominadora, já vivi despedidas muitas vezes. Ora por escolha minha, ora por escolha do submisso. E mesmo quando a escolha é minha, eu odeio as despedidas. Não consigo ser amiga delas, não consigo aceitar que elas existam, embora entenda perfeitamente que devem existir. A gente tem q saber a hora de abrir as mãos, de deixar partir, de recomeçar, ou de ficar sossegada no canto, apenas permitindo que as coisas tomem o rumo que têm que tomar. Isso não significa comodismo, ou inércia... Às vezes, é uma expressão de sabedoria.

Queria nesse exato momento que Vinicius estivesse vivo e disponível pra um whisky comigo. Tenho certeza de que teríamos conversa pra muitas horas, e que sairiam dessa conversa duas ou três poesias. Poesias de desencanto, regadas à cansaço, a esgotamento e dúvida. Poesias com a cara de uma sessão intensa de dominação, como um submisso amarrado, amordaçado, tentando gritar por redenção. Poesias suadas, exaustas, cobertas de feridas e lágrimas.  Queria mais... queria não ser tão bagunçada aqui dentro, saber definir o rumo menos doloroso das coisas. Acertar de vez em quando. Acho que hoje, eu queria não ter voltado pra cá. 

Eu nunca soube ser quieta. Nunca soube ser correta, boazinha. Não lembro de um momento na minha vida em que os meus instintos não tivessem gritado. Claro que vez ou outra, eu conseguia abafar os gritos, mas na maior parte do tempo, eu tava lá, seguindo a eles, brigando com eles e eles me vencendo. E eu sorrindo. Eles sempre foram os adversários pra quem eu fazia questão de perder. Mas em alguns momentos, como nesse exato, eu tenho vontade de ter abafado os gritos, sufocado os instintos, colocado uma mordaça neles. Vontade de ter sido politicamente correta, uma santa mulher.  Estaria menos despedaçada, não teria cacos pra recolher. Não teria dúvidas simples, e tampouco as mais complicadas. Não estaria fazendo conjecturas sobre o que vai acontecer amanhã, depois de amanhã ou daqui a uma semana. Se esse não fosse um dia atípico, eu estaria rindo das minhas dúvidas, mas hoje, elas me assombram.

Pode ser que amanhã eu delete esse post. Pode ser que eu deixe ele aí, só pra poder rir desse momento, pra dizer "cara, é sério que você pensou em desistir?" ou ainda, que eu pense que toda loucura é santa e me canonize, me ache o máximo. E já que pode ser tanta coisa amanhã, vou torcer pra que hoje acabe, de preferência como eu nunca soube ser. Serenamente.



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